Por que não perder “Azul é a Cor Mais Quente”

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Dezembro é uma correria. Só hoje estreiam nove filmes em São Paulo – ao menos mais um deles imperdível, o mexicano La Jaula de Oro, premiado na Mostra. Mas se você quer ver algo realmente interessante, não pode deixar de ver o francês  Azul é a Cor Mais Quente.

É um filme de roteiro extremamente banal: duas meninas, Adele e Emma, se conhecem, se apaixonam, uma delas reluta um pouco em admitir a atração gay; elas finalmente começam a namorar, vivem um período maravilhoso, até que Adele pisa na bola, elas terminam, passam por um período de mágoas etc.

Mas o diretor Abdellatif Kechiche consegue um prodígio meio difícil de explicar. A câmera fica tanto tempo sondando as atrizes que em dado momento algo de muito espontâneo acontece. É como se, à base de muito trabalho, ensaio e preparação, à base de uma filmagem exaustiva, de repente algo de muito “real” acontecesse – e aquelas atrizes já não mais existissem, talvez nem mesmo os personagens. Apenas a vida filmada, com todo o brilho da paixão ou a violência da separação.

Um exemplo: em Cannes, as pessoas começaram a comentar que havia uma cena de sexo longuíssima, “de uns 20 minutos”, que muitos consideravam desnecessária. Vi o filme e cronometrei: são sete minutos. Mas o resultado é tão autêntico que parece mesmo dilatar o tempo na sala.

Um intruso no cinema francês

Kechiche é um tunisiano que ainda criança foi morar na França. Talentoso, destacou-se desde o seu primeiro longa como promessa do cinema francês. Tem uma fama um pouco parecida com a do Lars Von Trier, de torturar os seus atores até conseguir o que quer. Esse efeito de “realidade”, que derruba o espectador, já tinha sido conseguido em seu filme anterior, Vênus Negra (2010), que relata um caso assustador: uma africana de ancas e peitos gigantes que foi levada à França em 1817 para apresentações públicas do seu corpo “exótico” – e apresentações privadas para a nova burguesia, que chegava a tocá-la como a um animal.

Talvez por ter exposto com tanta contundência o lado menos glorioso da cultura francesa, Kechiche ainda parece ser tratado hoje como um enfant terrible – alguém que, por sua origem, não devia estar ali onde está hoje, na elite do cinema francês, ganhando a Palma de Ouro em Cannes.

As atrizes de Azul…, Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos, reclamaram do tratamento recebido nas filmagens, dos dez dias levados para filmar a cena de sexo, e boa parte da mídia francesa deu-lhes razão contra o diretor. O engraçado é que não houve essa mesma polêmica quando a cubana Yahima Torres foi muito mais “maltratada” nas filmagens de Vênus. Isso diz mais sobre os preconceitos velados da França do que sobre o cinema de Kechiche.

E quanto às lésbicas que têm reclamado que Kechiche não foi “verossímil” ao filmar o sexo entre duas mulheres, fico com a frase do Michel Ciment este ano na Mostra: “as pessoas continuam acreditando que um artista só pode falar daquilo que conhece. Se fosse assim, Kubrick nunca teria feito 2001 porque não viveu no tempo dos primatas e nunca viajou numa nave especial”. O importante aqui não é “corresponder à realidade”, mas criar uma obra coerente em seus próprios sentidos.

Pela polêmica, pela direção mais do que original, pela história de amor que pega na veia, por tudo isso, é preciso ver e rever Azul é a Cor Mais Quente.

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Sobre Thiago Stivaletti

Jornalista formado em Jornalismo na USP e com pós em cinema na França. Faz parte da equipe de produção e seleção de filmes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Atua como free-lance na área de cinema e cobre o Festival de Cannes para o UOL, além de outros festivais como Cine PE (Recife), Paulínia e Gramado.
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